TRIÓDIO DA QUARESMA NA ORTODOXIA – CELEBRAR COM ALEGRIA
Com inicio no Domingo do Fariseu e do Publicano (dia 5 de fevereiro de 2023), decorrerá um período de 10 semanas, conhecido por Triódio da Quaresma, porque nesta altura apenas se cantam 3 odes em lugar de 10, nos cânones de matinas e outros ofícios de orthos (celebrações matinais durante alguns períodos do ano, como na quaresma).
Este período está dividido em três partes, uma de 3 semanas, ou de preparação, seguidas da Grande Quaresma durante 6 semanas, culminando com a Semana Santa que antecede a Páscoa.
Considera-se que durante este período, a semana se inicia à segunda-feira, anunciada com uma comemoração no domingo anterior para despertar as mentes, a ascese e a alegria.
No rito Bizantino usa-se um Livro denominado Triódion Quaresmal, com os textos a usar durante estas semanas; com leituras adicionais de Salmos e do Pentatêuco.
No decurso deste período decorrem duas importantes festas: Anunciação a Nossa Senhora, no Sábado dia 25 de Março e o Domingo de Ramos a 9 de Abril.
O Domingo da Ortodoxia ou dos santos ícones (comemorando a vitória sobre os iconoclastas), introduz o período da Grande Quaresma.
É um tempo privilegiado para viver a Ressurreição, nas nossas vidas, para experimentarmos a alegria da vinda do Salvador e da sua Ressurreição em nós próprios.
Não é altura para tornarmos as nossas vidas tristes, absurdas, focados na inevitabilidade da morte e nos horrores do sofrimento.
Não é apenas o tempo de jejuns que privam o corpo de alimentos necessários, mas que seja de um consciente jejum espiritual, afastando o supérfluo e desnecessário, que nos lembra a travessia no deserto e a libertação do Povo de Deus, para vivermos alegre e intensamente a vida nas coisas belas e nos revestirmos do Homem Novo.
É um tempo de perdão, mas que deve ser precedido de arrependimento, com o coração de cada um a rejubilar de alegria.
Para que a quaresma seja vivida a sério, temos de ter um estilo e um ritmo de vida focado no interior de nós, mais do que na máscara externa, no esforço de considerarmos os outros nossos próximos, em que o nós é parte de outros.
No Triódion está o relevante e magnifico Akathistos, composto por São Romano, O Melodista (Homs 490- 560 Constantinopla), que é um dos mais belos cantos litúrgicos, de que aqui deixo uma parte do poema, na minha tradução, dirigido à Anunciação à Virgem, no Ikos (ode cantada) após o Kontakion 1 (hino inventado por Romano e introduzido no meio das matinas), que nas versões portuguesas cantadas aparece com “Avé” em lugar de “Alegrai-vos”:
Alegrai-vos,
por meio de vós resplandecerá a alegria:
Alegrai-vos,
por meio de vós a maldição cessará!
Alegrai-vos,
lembrai-vos de Adão caído:
Alegrai-vos,
redenção das lágrimas de Eva!
Alegrai-vos,
altura inacessível aos pensamentos humanos:
Alegrai-vos,
profundidade indiscernível até mesmo para os olhos dos
anjos!
Alegrai-vos,
porque tu és o trono do Rei:
Alegrai-vos,
porque suportas Aquele que tudo suporta!
Alegrai-vos,
estrela que faz aparecer o Sol:
Alegrai-vos,
ventre da Encarnação Divina!
Alegrai-vos,
por meio de vós por meio de quem a criação se renova:
Alegrai-vos,
por meio de vós que adoramos o Criador!
Alegrai-vos,
ó Noiva sem pecado!